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Como ela mesmo diz: Mamãe pâncreas (D. Irani, mãe da Carol Freitas- DM1)

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“ Depois de 4 gravidez, enfim eis que finalmente consegui ter uma minha tão sonhada menininha!!! A gravidez foi tranquila, engordei dentro do aceitável, você nasceu com peso e tamanho normais.... a felicidade inundou nossa casa!!! Em seu aniversário de 1 mês de vida, percebi que você estava mamando mais, urinando mais e com um choro estridente, que me fez perceber que havia algo diferente. Te levei ao médico e foi diagnosticado otite. Durante a noite o choro não passou, notei que vc estava mamando mais e urinando muito mais, ao colocar uma fralda no chão vi que a fralda encheu de formigas doceiras. No dia seguinte, fomos ao médico novamente e da noite para o dia você perdeu 1,5kg. A levei em uma clinica e como estava desidratada o médico pediu que comprássemos um soro GLICOSADO e você ficaria em observação.

Naquele momento você teve um livramento, porque seu pai não conseguiu o soro com glicose e levou o comum mesmo. Você ficou em observação, mas como não melhorou o médico indicou a internação... Ai veio o meu primeiro desespero, seguido da primeira crise de choro: Eu não queria que minha bebe ficasse internada, tinha medo do que poderia acontecer... No hospital solicitaram uma série de exames e o susto: Sua glicose em jejum estava 800!!! Pediram novos exames, pois não acreditavam que era possível um recém nascido estar com glicose a 800... Então veio o diagnóstico: Diabetes Melitos Tipo 1...

Foi um choque, um susto, abriu-se um buraco no chão, mas eu não podia pular, nem me esconder nele , afinal eu tinha que ter forças para criar os outros filhos e sobretudo para criá-la, pois sabia que precisaria de mim!!!

Após o diagnóstico você ficou internada por mais de 30 dias, dos quais não dormi. Ainda bem, porque em uma noite a enfermeira desatenta te aplicou soro glicosado por 20 minutos e por sorte eu percebi! Em outra noite o berçário pegou fogo e você só se salvou por  que eu estava acordada... Queriam raspar seu cabelinho lindo para aplicar soro e não deixamos, seus bracinhos já não tinha veias, mas estávamos ali ao seu lado...

Após a sua alta veio a realidade: como controlar sua glicose, como aplicar insulina e se você tivesse uma hipoglicemia e eu não percebesse???? “

Os médicos de BH (Belo Horizonte -MG)  ficaram loucos, porque até então não conheciam outros recém-nascidos diabéticos, nem sei se tem outros bebês com um mês diabéticos, sinceramente nem eles sabiam ao certo qual era a melhor maneira cuidar de você e se o tratamento seria bem sucedido. Diziam que fariam o possível para dar tudo certo, mas que seriam tentativas. Imagine como fiquei... No começo foi muito difícil...

O tratamento era muito caro, você muito pequena, não tínhamos muitos recursos tecnológicos disponíveis, os médicos pareciam descrentes e as outras pessoas acreditavam piamente que você não sobreviveria, mas eu costumava dizer que te amaria e cuidaria de você da mesma forma!!! (Adoro quando minha mãe conta isso, choro com ela!!!)

Você já saiu do hospital tomando insulina, na época era mista: bovina com suína, fedida e muito cara... O problema é que eu nunca havia aplicado injeção em ninguém, não queria aplicar e tinha medo de agulhas.

Por causa do meu medo, tive a brilhante ideia de contratar uma enfermeira só para aplicar a insulina, mas na primeira aplicação a abençoada fez o favor de entortar a agulha no seu bumbum. Foi quando a minha ficha caiu e percebi que a sua sobrevivência dependeria somente de mim... Não teve jeito e fui obrigada a aprender a aplicar em você, coisa que fiz até 12 anos, né dondoca... risos.

Além de aprender a aplicar a injeção, também tive que aprender a lidar com a doença, adaptar a minha vida aos horários rígidos para colher sua urina e isso foram noite e mais noites acordada esperando você fazer xixi, horários rígidos para sua alimentação, cuidado para ferver as seringas de vidros com agulhas de ferro 15mm(Exagero da parte da minha mãe!!!), cuidado com seus pés para não serem amputados, cuidado com sua visão para você não ficar cega antes dos 30 anos, cuidado para você não ter problemas cardíacos ou renais, cuidado para você não ter hipo e entrar em coma, cuidado para você não ter hiper e ter consequências a longo prazo, cuidados, cuidados e mais cuidados!!! Santa ignorância... Hoje acho que a metade era cuidado de mãe zelosa, que não tinha muita informação e que morria de medo de perder a filha...
Minha maior preocupação era e continua sendo com as suas hipoglicemias. Quando você ainda não sabia falar e estava com hipo você só tremia e sacudia as perninhas e lá estava eu ao seu lado com a glicofita, como o exame era feito na urina era doloroso ficar esperando. Antes de você fazer xixi eu já tinha te dado suco ou um docinho a muito tempo. Acho que sua glicose sempre ficou acima do normal, porque eu achava melhor controlar com a insulina. Eu também sempre cheirava sua boquinha e quando tinha cheirinho de acetona ou vinagre aumentava 1 ou 2 unidades da insulina!!! Bendita hora que inventaram o glicosimetro, que só pude comprar em 1990 um tijolinho, que custava o preço de um carro e com as fitas caríssimas... Graças a Deus hoje você já ganha da Prefeitura de BH.

O preconceito daqueles que não conhecem o diabetes também era uma coisa muito difícil de lidar... Nos aniversários eu levava pó de guaraná para fazer um refresco com água gasosa para você não se sentir diferente, ainda bem que inventaram o refrigerante e os sucos diet!!!.

Nas reuniões de família tinha que ficar ouvindo horas e horas as pessoas questionando se você era normal, se na escola era tratada com diferença, se estava acompanhamento o desenvolvimento das outras crianças... Em casa nunca escondi os doces da geladeira, porque seus irmãos não são diabéticos, eu não queria privá-los e queria que você entendesse que o doce estava ali, mas você simplesmente não podia comer.

Ouvir os desinformados falarem que você não sobreviveria também era muito dolorido. Eles queriam saber se você tinha peso e tamanho normal, se você passava fome, se você só comia salgadinhos, se na escola você acompanhava o desenvolvimento das outras crianças. Tirando os detalhes de quererem passar o relatório completo do que você comeu durante o dia e que você tinha comido uma bala! Eu dizia que não importava, que uma bala não ia te matar e que estava autorizada a comer, dai me olhavam com cara de espanto: mas sua filha não vai morrer??? Queria na época ter conhecimento para explicar que você podia sim comer doces!!!

Pouco a pouco aprendi a lidar com a doença, a controlar, aceitar e mostrar para o mundo que apesar dos cuidados extras, você era uma criança normal...

Pouco a pouco as dificuldades foram sendo vencidas no dia-dia, Deus sempre foi a minha força, digo apenas que Ele me utilizou e conseguimos superar isso tudo... Aprendi o que era diabetes, aprendi o que era e como se aplica insulina, aprendi a alimentá-la corretamente, aprendi até decifrar suas hipoglicemias quando ainda nem sabia falar. Gosto de repetir que para muitos ou quase todos eu não a teria por muito tempo, para os mais otimistas até os 15 anos, mas cada dia com você era um a mais e eu apenas agradecia. E é o que faço até hoje e são 32 anos, 9 meses e 5 dias(genteeee minha mãe sabe até os segundos que estamos juntas!!!).

Criei minha filha como os outros filhos, apenas com as restrições e cuidados necessários para os diabéticos.

Ela cresceu, estudou, fez faculdade, sempre trabalhou e nunca usou a doença como problema ou impedimento para nada. Foi uma adolescente normal que deu trabalho também, mas sempre teve controle e nunca precisou nem mesmo ficar internada. Casou-se a 6 anos, tem um marido maravilhoso e nos presenteou com nossa princesinha Isabella, a neta que todos diziam que jamais teríamos!!!

D. Irani, Isabella e Carol.


Minha filha é linda, carinhosa, responsável, realmente um exemplo a ser seguido, afinal, o diabético desde que controlado, pode tudo!!! E deixo minha mensagem para todas as mamães jamais desistam e não se esqueçam - onde Deus age, nada impede!!! Deixo um beijo carinhoso para todas as mamães pâncreas. Irani”

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