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As intercorrências da vida só serviram para me encorajar: Sou DM1 e a mãe mais feliz deste mundo!

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Olá!!!!

Eu sou a Gabriela, mais conhecida como Gabby. Tenho 35 anos, sendo 30 deles com DM1. Sou dentista, mas atualmente não clinico, pois resolvi, juntamente com meu marido, cuidar da nossa filhota até que ela complete 2 anos (não sei se vai ser tanto tempo...estou louca para voltar ao trabalho).

Bom, minha historia é comprida, mas acho que bem interessante.


Venho de uma família cheia de DM1, o que não é muito comum. Meus avós maternos não são diabéticos (meu avô morreu com 58 anos de AVC e minha avó tem hj 91 e não tem). Mas eles tiveram 4 filhos, todos DM1! 


Minha mãe também teve 4 filhos, sendo 3 deles com DM1. Eu fui a primeira a ser diagnósticada, com 5 anos. Meus pais souberam levar muito bem a situação, pois NUNCA me senti diferente dos outros (inclusive pq meus irmãos ficaram diabéticos alguns anos depois). Não sei se o fato da minha mãe também ser psicologa ajudou, mas acredito que sim.


Até os 12/13 anos sempre tive um excelente controle, era magrinha, esportista, super de bem com a vida. Morava em Portugal e já usava caneta de insulina (em 1992). Mas tudo mudou na fase da adolescência. Como comecei a engordar, coloquei na minha cabeça que a grande vilã era a insulina (afinal, é hormônio, e sabemos que insulina dá fome, comemos, temos q tomar mais insulina, e vira um ciclo). Pois bem, acabava não tomando o necessário, mas continuava gordinha. Isso resultou em 4 internações por cetoacidose, retinopatia aos 19 anos e isso se prorrogou até 2005, qd tinha 26 anos e fui diagnosticada com uma lesão renal. Numa das consultas, ao comentar que desejava ser mãe um dia, ouvi da minha nefrologista (uma excelente médica, referência em nefro em SP, mas com sensibilidade zero): "O que adianta você ter um filho, se ele vai ficar orfão?".


Aquilo não me desceu!!! Chorei horrores e a partir daí, resolvi que iria me cuidar!


A retinopatia estava sob controle, após mais de 10 sessões de laser em cada olho, sendo o que resolveu mesmo foi a vitrectomia em ambos, procedimento feito em casos extremos. Mas os rins, não estavam bem! Proteinúria e Microalbuminúria elevadíssimos e uma lesão irreversível. Chega!!!!


A partir daí, mudei radicalmente! Comecei a comer menos, controlar muito bem a minha glicemia e comecei a ver os resultados. Conheci o homem da minha, uma pessoa que se interessava pela minha doença e passou a me ajudar a me cuidar. Em 3 anos, emagreci 16kg, glicada passou para 7, e me sentia muito melhor. Casei em 2010 pesando 52kg (tenho 1,62m). Estava feliz e contente. Mas ainda me faltava algo: um filho!


Quando decidimos ter filhos, logo quando me casei, já estava com os valores dos exames renais mais próximos do normal possivel há 1 ano (como a lesão é irreversível, nunca é possível normalizar). Minha nefro, que finalmente se conformou que não iria tirar a idéia de ser mãe da minha cabeça, resolveu que iria me apoiar, mas falou que eu precisava ficar pelo menos mais um ano assim para engravidar! Não obedeci e já começamos a tentar!


Paralelamente, encontrei um anjo na minha vida!!!! O melhor G.O. do mundo, especialista em gestação de diabéticas, super antenado e um fofo! Desde sempre ele me alertou que a minha gravidez não seria fácil!!! Mas eu estava disposta a enfrentar! Ele mudou meu esquema de insulina, e deixei de tomar a Lantus, voltando a boa e velha NPH, só que fracionada 3x/dia, e mantive a Humalog. Ele me disse que só me deixaria engravidar se estivesse com a glicada no máximo em 6,5 por 1 ano. Com esse esquema consegui baixar a glicada, mas continuavámos tentando engravidar...e nada!!!! Qd somos oficialmente "autorizados" a engravidar, 1 ano depois, nada de conseguir! Fiz exames e descobrimos pólipos no útero. Operei e no mês seguinte (dez/2010), engravidei! Soube dia 15/1/13, um dos melhores dias da minha vida!!!!

Porém, 20 dias depois, com 9 semanas de gestação, veio o primeiro de muitos sustos: tive um descolamente de 25% do saco embrionário! Tive que ficar em repouso total e usar Utrogestan por muito tempo, e rezando para q o bebê "colasse" de novo. Ele colou! Mas só tivemos certeza com 20 semanas, e nesse período tb descobrimos que iríamos ter uma menina!!! O nome Sophia já tinha sido escolhido desde que namorávamos, pois significa sabedoria, e nada mais apropriado para o que já havíamos passado e ainda viríamos a passar!!! Mas nessa época, tive que ser internada pq minha pressão já estava ficando alta e o diabetes não muito compensado. Fiquei 2 semanas no hospital! 


Após sair, comecei a ter crises noturnas de ansiedade e pânico...horrível!!! Meu marido foi um anjo nesse período! Comecei a tomar antidepressivo e remédio para dormir! E também passei a fazer ultrassom todas as semanas. Num deles, descobriram uma resistência no cordão umbilical, e resolveram entrar com um método experimental para diminuir essa resistência: injeções diárias de CLEXANE, um tipo de heparina, até o fim da gestação. Ok, vamos embora!


Continuei sem conseguir trabalhar, vomitando todos os dias de manhã, tomando remédio para a pressão (ALDOMET 2x por dia), sem conseguir me alimentar direito pq não tinha fome nenhuma. Até que, com muita resistência da minha parte, meu querido médico não me deu alternativa a não ser me internar de novo! E assim foi até a Sophia nascer (2 meses depois)! Durante a internação, um novo sintoma apareceu! Comecei a ter uma urticária absurda no corpo inteiro, e veio o diagnóstico de colestase gravídica, algo super raro de acontecer mas aconteceu comigo. Ocorre quando o figado deixa de metabolizar correramente a bile e ela é "jogada" para o sangue. O problema maior não é a coceira absurda, mas sim que mexe com a vitalidade do bebê! Passei a fazer o cardiotoco 3xdia,
além do ultrassom 1xdia! Drenagem 2xdia também fazia parte da minha rotina no hospital, porque fiquei muito inchada. Estava exausta!!!! Mas sempre com o apoio do maridão, que não me largou 1seg no hospital (ele trabalha com TI e o chefe dele deixou-o trabalhar remoto do hospital) e também de toda a minha família. Nessa altura, o diabetes estava super controlado, a pressão um pouco elevada (mas sob controle), as injeções de heparina e de insulina não me atrapalhavam, mas a questão da colestase preocupava. Passei também a fazer exames de sangue diariamente para saber, entre outras coisas, o nível de bile no sangue e a função renal, que estava no limite do limite. Até que, um belo dia pela manhã, meu médico nos informou que a Sophia iria nascer naquela tarde, mas se passássemos disso, a bebê e eu correríamos risco

Gestação da Sophia

E assim ela veio! Nossa doce Sophia nasceu no dia 19 de agosto de 2013, às 18:17, com 35 semanas, 46cm e 2,955kg. Foi direto para a UTI Neo (eu já sabia que isso iria acontecer, pois o pulmãozinho não estava pronto ainda e precisavam monitorar a glicemia dela por alguns dias). Fui vê-la só no dia seguinte, e só pude pegá-la no colo à tarde. Ela era tão linda e frágil! Estava entubadinha, com acesso, dentro da incubadora, mas mesmo assim eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo. Acabei ficando internada porque sentia muitas dores da cesárea (não posso tomar antinflamatório por causa dos rins, e estava à base de Tramal). Isso facilitava a vida, pois ficava confortável no quarto esperando os horários de visita da UTI. Sophia teve alguns probleminhas nesse período, como hicterícia, baixa saturação, etc, mas tudo foi contornado e após 1 semana fomos liberadas para ir para casa. Estavamos muito felizes!!!

Sophia na UTI

Infelizmente, não consegui amamentá-la quase nada, pois além do pouco leite, tenho "bico do peito invertido", o que dificultava mais ainda. Após dois meses, desisti de vez! Resolvi me conformar e não sofrer com isso, afinal era algo tão pequeno perto do que passamos.
Durante a gravidez, engordei 15kg. Pesava 55kg antes. Os primeiros 10kg foram embora no primeiro mês. Hj peso 59kg, e está muitooooo dificil eliminar o restante. O diabetes está ótimo! Terminei a gravidez com a glicada em 5,6 e a última estava em 6,4. Nos primeiros meses, foi difícil conciliar a vida bebê-diabetes-mulher, mas aos poucos, fui voltando a me cuidar em todos os aspectos, sem descuidar da Sophia. Também fui aprendendo a ser mãe, algo dificil, mas muito gostoso.



Sophia e vó ( q também é  DM1- Lada)

Hoje ela está com 1 ano e 3 meses e tem a saúde perfeita!Após quase 4 anos do início da batalha, posso dizer que faria tudo de novo! Queria muito o segundinho! Mas meu GO disse que não vai dar, pois meus rins não aguentariam desta vez. Meu marido nem cogita correr esse risco!

Sophia

Por isso, toda a vez que olho para a Sophia, tenho certeza que não existe maior amor nesse mundo! E finalmente nossa família está completa!!!!

Sophia e mamãe

3 comentários:

  1. Minha querida prima, meu orgulho! E meu bebé Sophia, coisinha doce e perfeita da prima :)

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  2. Linda história, apesar de muito sofrida nos dá a certeza que valeu a pena. Parabéns pelo depoimento.

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