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Trinta anos de DM1, um filho e muito amor pela vida

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Olá!!

Me chamo Juliana, tenho 34 anos, dm1 há 30 e sou bióloga (dois empregos rs). Sou do tempo da insulina suína e da seringa de vidro. Não tenho muita lembrança do meu diagnóstico, mas me lembro que quando minha mãe me mostrou a seringa e me disse que eu tomaria aquela injeção pelo resto da vida, ela chorava mais do que eu.

Crianças são incríveis. Mães e pais de crianças diabéticas, saibam disso! Crianças se adaptam a tudo com uma tranquilidade fantástica. E eu fui vivendo, crescendo, numa época em que não existia nada além da glicofita! (Para os novatos, a gente media o açúcar no xixi com uma fitinha amarela!!)

Na adolescência eu tive lá meus percalços, mas foi na faculdade que a coisa desandou. Decidi curtir a vida a qualquer preço, e o preço veio logo. No ano 2000 eu fui internada com cetoacidose diabética e quase morri. De verdade. Saí do hospital com medo. Mesmo assim, com vinte e poucos anos a gente não acha que algo vai dar errado, eu acabei me esquecendo do sofrimento do hospital e retomei minha “vidaloca!” Mas a semente da maturidade estava plantada, e aos 25 anos eu resolvi mudar de vida.

Troquei de endócrino, troquei de tratamento. Em 2006 comecei a tomar Lantus e Humalog com contagem de carboidrato (eu tomava NPH com R antes e era uma M*) e troquei as hipers pelas hipos... foram muitas tentativas, mas meu controle seguia instável, mesmo com todo meu esforço. E então, sem querer querendo, em 2007, eu engravidei do meu então namorado (hoje marido)! Com glicada em 9! Sem nenhum plano, aos 26! Meu endócrino surtou comigo... com razão... mas mais uma vez eu troquei o desespero pela perseverança. Filho, gravidez, são coisas divinas... não tem explicação. Vc tira força de onde não tem e segue em frente. Eu militarizei meu controle e no primeiro trimestre da gravidez minha glicada foi pra 5,5.


Satisfação!
Foi uma gravidez tensa. Eu tinha medo de algo ruim acontecer pro bb... fui internada na 11ª semana com hipoglicemias severas... mas sobrevivi... sobrevivemos! Levei meu segundo trimestre numa boa... conversava com muitas mães dm e procurava me blindar da avalanche de desgraça da internet. Foi o trimestre que eu curti a gravidez. Com a entrada do terceiro trimestre veio uma onda de fatos inexplicáveis de novo. Eu estava com ganho de peso normal até então, mas de repente comecei a inchar... e inchei... assustadoramente quase 30 kilos.

Apreciando minha barriga
Eu estava sendo acompanhada pelo G.O, endócrino, nefro e oftalmo, apesar de até então não ter nenhuma complicação. Mas ela chegou... a retinopatia. Com a glicada em 5.3, a melhor da minha vida, eu desenvolvi retinopatia... eu não podia acreditar! A explicação foi a gravidez e o inchaço, e como a coisa toda estava evoluindo muito rápido, entre a 35ª e 36ª semana meu oftalmo recomendou a interrupção da gravidez...

Ansiosa,indo para o hospital ter o João.

No alto dos meus 92 kilos (comecei a gravidez com 55), dia 2 de abril de 2008, fui pro hospital ganhar meu bb um mês antes do previsto. Eu sonhava com parto normal, mas não rolou... fiz cesárea. João nasceu com 3,975kg, 49cm, 36 semanas, com hipoglicemia e taquipneia transitória do recém nascido de cesárea. Foi pra UTI. Foram longos dias... os mais longos da minha vida, pq eu tb não estava bem. O inchaço não ia embora e eu só consegui andar no terceiro dia após o nascimento do João. Esgotei meu estoque de lágrimas, orações e força, e dez dias depois eu estava em casa com meu bb!!!! Estava tudo bem, nós estávamos bem! Era tudo mágico! 

João no Hospital
Quanto a amamentação,amamentei até o sétimo mes e o peso no primeiro mês pós parto perdi 20 kgs, e até o fim do ano de 2008 perdi tudo. Só amamentando e vivendo. Sempre fui muito magra, mas é de família. Eu tenho 1,74 e pesava 55kgs antes de engravidar agora estou estável em 62kgs... Mais feliz. Pq eu era magra demais.

Por recomendação do endócrino e do oftalmo eu laqueei um ano depois do João nascer. Fiz isso decidida, de maneira tranquila. Não me arrependo. No meu coração, minha família está completa.

Eu continuei acompanhando mensalmente a retinopatia e ela estabilizou em inicial não proliferativa (estágio 1), mas eu achei que precisava me cuidar mais! Na gravidez eu tinha conhecido a bomba de infusão e tinha decidido que após o parto eu ia testar. As hipos acabavam comigo e eu já tinha testado todos  os esquemas de tratamento e insulinas do mundo, tudo pelo SUS, sempre fui atrás.

Com a bomba de infusão não foi diferente. Trilhei o caminho das pedras e consegui a bomba, três anos depois de começar a correr atrás (lembra da perseverança?), através da promotoria da saúde da minha cidade. Abri as portas pra muitos depois de mim, tenho orgulho!

Comecei a usar a bomba em fevereiro de 2011, minha glicada se manteve desde então entre 6 e 7! Mas nem tudo são flores. Este ano, 2015, eu tive vários problemas de saúde aleatórios que acarretaram em descontrole glicêmico... minha últimas duas glicadas deram 7,7 e 8 e eu descobri na última ida ao oftalmo (vou duas vezes por ano no oftalmo e uma no nefro) que minha retinopatia tinha acordado com força total... proliferativa, último estágio. Entrei em PÂNICO!!! Pedi ajuda no grupo do fb, pros amigos, médicos, eu preciso conhecer pra aceitar. Depois do desespero... sempre vem a aceitação. Eu escorreguei, descuidei, e com 30 anos de diagnóstico a gente não pode se dar a este luxo.

Eu, João e meu esposo
Mais uma vez eu revi meu controle, minhas práticas e estou totalmente euglicêmica. Estou até assustada com o nível de controle que eu cheguei, há dias minha glicemia está dentro do intervalo alvo (80-140) e isso é fantástico! Estou confiante, começo laser em alguns dias, meu oftalmo disse que vai ser tranquilo, que é só em uma parte do olho esquerdo, e que minhas chances de melhora são enormes!

Nossa vida é assim. Um exercício de paciência, perseverança, resiliência e força! Sou plenamente feliz, tenho uma família linda e planos até os 100 anos. Quero conhecer o mundo inteiro, quero vê-lo... e pra isso abri mão de algumas coisas. São minhas escolhas! E acredito que elas são as melhores possíveis!


Resiliência e persistência... estas são as chaves! Eu nunca desisto! Prometo pra vcs uma glicada de 6 em dezembro! ;)

Momento família, algo que o DM não me impediu de ter

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